Carregando...

  • 02 Aug, 2026

Exilado em Miami após cinco anos preso, o fundador do Movimento San Isidro conta violações e greves de fome e quer manter a resistência cultural no exterior.

O artista cubano Luis Manuel Otero Alcántara, de 38 anos e um dos fundadores do coletivo Movimento San Isidro, chegou recentemente a Miami após ser obrigado a deixar Cuba como condição para sua libertação. Condenado a cinco anos de prisão por desrespeito aos símbolos nacionais, desacato e distúrbios públicos, ele cumpriu a pena e recebeu visto humanitário dos Estados Unidos.

Otero Alcántara tornou-se figura central da dissidência não partidária ao transformar a performance artística em forma de protesto contra o governo. Entre suas ações, carregou a bandeira cubana por um mês, criou o que chamou de Museu da Dissidência e protagonizou greves de fome, episódios que o colocaram na mira das autoridades e contribuíram para a sua sucessão de detenções e vigilância.

Em 2021, após as manifestações de 11 de julho, ele foi levado para a prisão de segurança máxima de Guanajay, a oeste de Havana, onde cumpriu a pena. A sentença e o julgamento foram, segundo ele, uma encenação; a promotoria e a defesa já teriam esperado o veredito de cinco anos. Na sala de audiência, a presença da família foi um dos momentos mais difíceis para o artista.

Na prisão, Otero descreve condições restritivas: uma cela de cerca de quatro metros por três, com quatro camas de cimento, banheiro sem porta, câmeras e vigilância constante. Relata convívio forçado com outros detentos, ansiedade, episódios de isolamento e punições que incluíram transferência para celas de castigo. Ele conta que chegou a ficar em greve de fome por cerca de 48 dias e fez, ao todo, seis ou sete protestos desse tipo.

Apesar das restrições, manteve a produção artística e usou a arte como resistência. Criou um projeto no qual “vendeu” os dias de sua pena — quem comprava recebia um fragmento de almanaque e um contrato simbólico — e produziu desenhos e pinturas mesmo em celas de punição, obras que, segundo ele, eram apreendidas pelas autoridades. A comida enviada por amigos e familiares também teve papel simbólico e prático na sua sobrevivência.

Otero relata que, por ser uma figura conhecida, recebeu tratamento ambíguo: teve, em alguns momentos, maior acesso a alimentos porque estava alojado junto a condenados à prisão perpétua; ao mesmo tempo, sofreu isolamento, restrições nas visitas e vigilância direta por parte de presos informantes e guardas. Ele atribui parte da proteção a denúncias e à atenção internacional, que, na avaliação dele, funcionaram como freio a abusos mais extremos.

Segundo Otero, desde o início da prisão lhe ofereceram o exílio como única saída para deixar o país. Nos primeiros 18 meses ele recusou, mas acabou aceitando ao concluir que, do exterior, teria mais espaço para criar e articular formas de resistência que não seriam possíveis sob vigilância permanente em Cuba. Ele adverte, porém, que o exílio é “extremamente cruel”: implica separação da família, ausência na vida do filho e outra forma de violência política.

Ao chegar a Miami, hospedado temporariamente perto de Pequena Havana, o artista disse estar animado para continuar seu trabalho como criador e ativista. Planeja transformar suas experiências e peças artísticas em novas estratégias de resistência no exterior, com o objetivo de dar visibilidade à situação em Cuba e continuar a busca por mudanças no país.

Fonte da imagem: WALTER FOJO/BBC

Fonte das informações: BBC News Mundo

Sua experiência neste site será melhorada, permitindo que os cookies Política de Cookie