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Da Cisplatina e do Prata às disputas por fronteiras, crise nuclear e conflitos diplomáticos, tensões só foram atenuadas com o Mercosul em 1991.
A rivalidade histórica entre Brasil e Argentina envolve conflitos militares, disputas territoriais e longos períodos de desconfiança diplomática que atravessaram os séculos XIX e XX, sendo parcialmente superada apenas com a integração regional nas décadas finais do século XX.
As tensões começaram na época colonial, quando portugueses e espanhóis, junto a bandeirantes, jesuítas e povos originários, disputavam a Bacia do Prata. Com a formação dos Estados modernos, esses atritos migraram para conflitos entre as novas formações políticas.
O primeiro confronto armado direto entre as partes ocorreu na Guerra da Cisplatina (1825–1828). O conflito opôs o Império do Brasil às Províncias Unidas do Rio da Prata pela posse da Província Cisplatina, hoje em grande parte o Uruguai. A anexação por Portugal em 1821 e a insurreição dos Trinta e Três Orientais em 1825 precipitaram a guerra. O impasse foi resolvido por mediação britânica, que resultou, em 1828, na criação da República Oriental do Uruguai como Estado tampão.
Um novo confronto armado se deu na chamada Guerra do Prata (1851–1852), motivada pela expansão de poder do ditador argentino Juan Manuel de Rosas. Temendo a influência de Rosas sobre Paraguai e Uruguai e a possível anexação de territórios do sul do Brasil, a corte brasileira formou uma aliança com forças uruguaias, paraguaias e argentinas opositoras ao ditador. A batalha de Monte Caseros, em 1852, selou a derrota de Rosas e sua fuga para o exílio no Reino Unido.
Na década seguinte, Brasil e Argentina foram aliados na Guerra do Paraguai (1864–1870), em que também participou o Uruguai. Apesar dessa cooperação militar, as relações bilaterais seguiram marcadas por desconfianças e disputas diplomáticas ao longo do século XIX.
No final do século XIX, já como Estados republicanos plenamente constituídos, houve outra crise importante: a Questão de Palmas (c. 1890–1895), disputa sobre limites em áreas hoje dos estados de Santa Catarina e Paraná. A controvérsia incluiu acordos rejeitados internamente no Brasil e foi submetida à arbitragem internacional. O presidente dos Estados Unidos Grover Cleveland atuou como árbitro, e o Barão do Rio Branco, José Paranhos Júnior, defendeu os interesses brasileiros com um amplo documento baseado no princípio do uti possidetis, assegurando a decisão favorável ao Brasil.
Ao longo do século XX as tensões assumiram caráter principalmente diplomático. No início do século houve inquietação argentina diante do rearmamento naval brasileiro. Entre 1906 e 1910, o ministro argentino Estanislao Zeballos patrocinou campanha pública hostil ao Brasil e chegou a sugerir, segundo registros da época, ações extremas contra a esquadra brasileira — episódio que quase levou a um confronto e terminou com a renúncia de Zeballos.
Durante a Segunda Guerra, a entrada do Brasil ao lado dos Aliados em 1942 despertou suspeitas argentinas de que o país estaria servindo a interesses norte-americanos na região. As divergências só diminuíram gradualmente, à medida que surgiram novas prioridades diplomáticas no pós-guerra.
Nas décadas de 1970 e 1980, a construção da usina binacional de Itaipu (1975–1982) e os respectivos programas nucleares geraram preocupações mútuas sobre segurança e capacidade de influência estratégica, em um contexto de “guerra fria” regional marcada por desconfianças e necessidade de maior transparência entre os governos.
Ao mesmo tempo, iniciativas diplomáticas e a redemocratização em ambos os países abriram caminho para a aproximação. A cooperação aprofundou-se nas décadas seguintes, culminando na assinatura, em 1991, do tratado que deu origem ao Mercosul, marco que oficializou uma era de maior integração e redução de conflitos diretos.
Hoje, embora persistam diferenças e interesses concorrentes no plano regional, a relação entre Brasil e Argentina é pautada majoritariamente por mecanismos diplomáticos e institucionais que buscam a cooperação econômica e política na América do Sul.
Fonte da imagem: Domínio público
Fonte das informações: g1
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