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  • 17 Apr, 2026

Projeto de ciência cidadã retoma atividades em Rondônia, formando estudantes ribeirinhos para monitorar pesca local e integrar saber tradicional à pesquisa.

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Em março de 2026 a equipe técnica do projeto "Ciência Cidadã como ferramenta de pesquisa em escolas ribeirinhas" retomou as viagens pelas águas de Rondônia para iniciar um novo ciclo de atividades voltadas ao monitoramento pesqueiro por estudantes locais.

O projeto recruta alunos voluntários de escolas públicas ribeirinhas e os capacita para atuarem como cientistas da pesca. Os estudantes monitoram a atividade pesqueira junto a pescadores — geralmente familiares — coletando entrevistas e dados sobre espécies e captura, e transformando informações do cotidiano em registros científicos que unem saberes tradicionais e metodologia científica.

A iniciativa foi ampliada em 2026 para incluir mais duas unidades de ensino na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã. O trabalho integra o Programa Ciência Cidadã para a Amazônia, da Aliança Águas Amazônicas, e em Rondônia é executado pela Ecoporé em parceria com o Laboratório de Ictiologia e Pesca (LIP/UNIR), com apoio da Wildlife Conservation Society (WCS) e da Fundação Moore.

Para chegar às comunidades a partir de Porto Velho, a equipe combina transporte terrestre e fluvial, enfrentando trajetos que revelam a diversidade geográfica da região. As escolas de Cujubim Grande e Jaci-Paraná ficam, respectivamente, a cerca de 33 km e 80 km da zona urbana; embora com acesso terrestre, ambas estão instaladas às margens dos rios.

A escola de São Carlos está a cerca de 70 km da capital e exige travessia fluvial pelo rio Madeira. A rota até a Reserva do Lago do Cuniã envolve travessia do Madeira até São Carlos, 13 km por estrada de terra — com tráfego reduzido no período de chuvas — e travessia do lago em embarcações pequenas. O distrito de Nazaré fica entre 100 e 150 km de Porto Velho: a expedição vai de carro até a foz do rio Jamari e segue por cerca de uma hora em voadeira.

Um dos objetivos do novo ciclo é reduzir a evasão registrada no ano anterior e consolidar a permanência dos jovens como pesquisadores ativos. Para isso, a estratégia de 2026 prioriza envolvimento maior das escolas, aproximação com gestores e professores e a inserção mais orgânica da iniciação científica e da pauta da pesca na rotina escolar.

A analista ambiental Dayana Catâneo explica que o engajamento passa pelo reconhecimento geográfico e cultural do território: "A base do engajamento é fazer o jovem compreender o privilégio de ter o rio Madeira — o segundo maior rio da bacia Amazônica e com a maior ictiofauna já descrita — correndo no quintal de casa". Ao mapear espécies locais e entender a importância da pesca para a subsistência, o estudante ressignifica seu entorno e valoriza o conhecimento tradicional.

O programa também conta com bolsas do "Jovem Cientista da Pesca Artesanal", do Ministério da Pesca e Aquicultura e do CNPq. A presença do projeto em nível nacional foi representada pela bolsista Fernanda Oliveira, que reside na comunidade de Terra Caída e use diariamente o transporte fluvial para estudar em São Carlos; ela participou do lançamento do novo edital em Brasília e espera que o novo ciclo aumente a coleta de dados.

Segundo o biólogo e membro da equipe técnica Felipe Lins, a aplicação do método científico à rotina alimentar transforma a relação dos jovens com a pesca e gera orgulho: "Eles têm como objeto de pesquisa os peixes e a pesca no 'quintal de casa'... começam a se perceber como ribeirinhos e a entender a magnitude do trabalho de seus próprios familiares". Lins relata também mudanças no vocabulário familiar, com alunos observando variações no consumo de espécies a partir das coletas que realizam.

A produção de conhecimento é horizontal, apontam os técnicos. Jamile Ferreira, graduanda em Biologia na UNIR e integrante da equipe, destaca que o aprendizado ocorre em ambas as direções: os resultados coletados pelos estudantes também qualificam o trabalho dos pesquisadores e trazem benefícios práticos para a comunidade.

Com a ampliação das escolas atendidas e o fortalecimento de vínculos com o sistema escolar, o projeto espera aumentar a participação dos jovens e a quantidade de dados sobre peixes e pesca, contribuindo para o manejo sustentável e para a valorização do conhecimento local nas comunidades ribeirinhas de Rondônia.

Fonte da imagem: Joshua Lacerda / Acervo Ecoporé

Fonte das informações: Assessoria / Ecoporé