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  • 02 Aug, 2026

Itamaraty mantém o embaixador Júlio Bitelli em Brasília por tempo indeterminado, aguarda sinais de retratação e preserva canais diplomáticos com a Argentina.

O embaixador do Brasil na Argentina, Júlio Bitelli, foi mantido no país por tempo indeterminado pelo governo brasileiro após reunião nesta quarta-feira (29) com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A decisão vale enquanto o Itamaraty avalia a evolução da relação com Buenos Aires.

Bitelli voltou a Brasília na segunda-feira (27) depois das declarações do presidente argentino, Javier Milei, feitas no sábado (25) durante convenção do Partido Liberal em São Paulo, quando Milei chamou Lula de "presidiário" e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de "lixo careca". Em seguida o governo brasileiro o chamou para consultas.

O governo explica que a permanência do embaixador em Brasília dependerá da observação dos próximos passos do governo argentino. Diplomatas ouvidos pela pasta consideram que ainda é cedo para autorizar o retorno e preferem aguardar uma redução da tensão nas relações bilaterais.

Na mesma quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, afirmou que o governo de Milei não pretende romper relações com o Brasil. A declaração foi considerada pelos diplomatas brasileiros como de tom mais conciliador e integra a avaliação sobre um eventual retorno do embaixador à embaixada em Buenos Aires.

Enquanto a decisão sobre o retorno não é tomada, a embaixada do Brasil na Argentina será conduzida por um encarregado de negócios, o número dois na hierarquia diplomática. A substituição temporária sinaliza, na linguagem diplomática, desagrado com o comportamento do chefe de Estado argentino.

Na segunda-feira (27), Bitelli teve uma conversa inicial com o chanceler Mauro Vieira no Palácio do Itamaraty para uma primeira avaliação da situação bilateral. O encontro, de cerca de 40 minutos, serviu para que o embaixador relatasse impressões sobre o quadro político e econômico argentino, perspectivas eleitorais e os impactos na relação com o Brasil.

Após ouvir o embaixador, o ministro deu instruções sobre os próximos passos a adotar diante do episódio envolvendo Milei. Segundo interlocutores do Itamaraty, a orientação é não transformar o episódio em uma escalada pública — evitar um "escarcéu" — e privilegiar a preservação dos canais diplomáticos para buscar esclarecimentos por vias oficiais.

O chanceler descartou, por ora, medidas diplomáticas mais duras, como a retirada da missão brasileira na Argentina, e disse preferir manter diálogo institucional para tratar do incidente.

O presidente Lula também recebeu Bitelli em um encontro rápido no fim da tarde de segunda-feira, no Itamaraty, antes da recepção ao presidente da Coreia do Sul. Segundo relatos, Lula demonstrou a intenção de não ampliar a repercussão do episódio.

Além de convocar o embaixador brasileiro, o Ministério das Relações Exteriores chamou para prestar esclarecimentos o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa” do governo e cobrar explicações sobre as falas de Milei em solo brasileiro.

Em nota, o Itamaraty classificou o episódio como "sem precedentes" e "lamentável", afirmando que não há registros de um presidente estrangeiro que, em território nacional, dirija agressões ao Chefe de Estado, às instituições democráticas e ao povo brasileiro. A nota ressaltou ainda a história de cooperação entre os dois países.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, também reagiu às declarações de Milei, considerando-as desrespeitosas a um magistrado da mais alta Corte e incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre Estados.

Na convenção do PL em São Paulo, Milei vinculou a candidatura de Flávio Bolsonaro a uma suposta "onda" política liberal na América do Sul e criticou decisões do Judiciário brasileiro, alegando, entre outros pontos, ter sido impedido de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. A negativa partiu do ministro Alexandre de Moraes, relator de um processo relacionado ao ex-presidente.

O governo brasileiro seguirá acompanhando declarações e gestos do lado argentino nos próximos dias para decidir sobre o momento mais adequado para o retorno do embaixador a Buenos Aires.

Fonte das informações: G1

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