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Suspeito teria usado diuréticos em entrevistas de emprego entre 2009 e 2018; polícia achou planilha com quase 250 vítimas e relatos de humilhação.
Uma investigação na França reuniu relatos de quase 250 mulheres que dizem ter sido drogadas e submetidas a situações humilhantes durante entrevistas de emprego entre 2009 e 2018. A polícia encontrou uma planilha no computador do suspeito que detalhava as supostas "experiências" com as vítimas.
Homem é suspeito de dopar 240 mulheres na França — vídeo publicado no Globoplay.
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As denúncias vieram à tona a partir de casos como os de Anaïs de Vos e Marie-Hélène Brice. Anaïs diz que, em julho de 2011, quando tinha 27 anos, participou de uma entrevista no Ministério da Cultura em Paris. Segundo ela, o entrevistador, o então funcionário Christian Nègre, ofereceu-lhe um café com gosto estranho. Pouco depois, passou a sentir fraqueza, tontura e uma necessidade incontrolável de urinar.
Durante a saída do escritório, Anaïs relata que Nègre a conduziu por ruas da cidade até as margens do Sena, sugerindo que ela urinasse em um depósito sob uma ponte. Ela conseguiu entrar em um café e acabou urinando em si mesma, episódio que diz ter sido profundamente constrangedor. Três horas após o encontro ela ainda se sentia exausta e não obteve o cargo.
Em 2019, Anaïs recebeu uma intimação da polícia e soube que seu nome constava numa planilha encontrada no computador do suspeito, intitulada "Experiments P". Segundo ela, o documento registrava horários das entrevistas, quando um diurético teria sido administrado, o tempo até a necessidade de urinar e o tipo de roupa íntima usada pelas mulheres.
Marie-Hélène Brice descreve episódio semelhante durante uma entrevista em Estrasburgo, em 2016. Após uma caminhada para "se acalmar", ela sentiu dores intensas e urgência para urinar junto a um canal; não encontrou banheiro e acabou sendo coberta pelo casaco oferecido por Nègre. Marie-Hélène afirma ter sofrido sequelas urinárias e psicológicas e considera o episódio uma agressão sexual.
A polícia iniciou a investigação em junho de 2018, após um colega de trabalho flagrar o suspeito tirando uma foto por baixo da mesa de uma mulher. Nègre foi inicialmente suspenso e demitido do Ministério da Cultura em 2019. Atualmente, já na casa dos 60 anos, encontra-se formalmente investigado por acusações que incluem dopagem de pessoas, invasão de privacidade e agressão sexual; ele aguarda julgamento e, por meio de seu advogado, recusou-se a comentar as acusações.
Investigadores acreditam que o método utilizado teria sido a administração de diuréticos — medicamentos que aumentam a produção de urina — em bebidas oferecidas às entrevistadas. Especialistas em toxicologia alertam, porém, que o uso de diuréticos com esse propósito é incomum e que há dificuldades forenses: substâncias são detectáveis por tempo limitado no sangue e na urina, e só no cabelo podem permanecer mais tempo, com limitações para determinar o momento exato da administração.
O professor Jean‑Claude Alvarez, responsável por um programa-piloto de análises laboratoriais, afirmou que o laboratório passou a buscar diuréticos entre as centenas de substâncias testadas. Para facilitar a identificação de possíveis intoxicações, um programa-piloto lançado recentemente permite que mulheres que suspeitam ter sido drogadas entreguem amostras de sangue, urina ou cabelo a laboratórios sem precisar formalizar uma queixa policial.
Vítimas e ativistas criticam a demora da Justiça. Anaïs relata ter sido procurada pela polícia em 2019, mas não ter recebido informações até 2023, apesar de vários contatos. Organizações que acompanham as mulheres afetadas afirmam que o suspeito continuou a atuar na área de recursos humanos por algum tempo, o que aumenta o sentimento de revitimização. Representantes da ONU Mulheres e parlamentares que trabalham no tema pedem respostas mais rápidas das autoridades e melhores mecanismos de apoio às vítimas.
Enquanto aguardam o desfecho judicial, muitas das mulheres seguem lidando com consequências físicas, emocionais e profissionais do que descrevem como atos de submissão química e humilhação durante processos de seleção de emprego. A investigação continua em curso, com relatos e exames periciais alimentando o processo.
Fonte das informações: relatos de vítimas, investigação policial, especialistas e organizações de defesa das mulheres.
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