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  • 17 Sep, 2026

Sobrevoos e satélite apontam "garimpos fantasmas" em PLGs que teriam fornecido cassiterita; compras podem ocultar extração ilegal perto de terras indígenas.

DE ARIQUEMES (RO) — A mineradora White Solder declarou a compra de grandes volumes de cassiterita atribuídos a duas Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) em Campo Novo de Rondônia, mesmo quando inspeções no local não indicaram atividade de mineração.

Entre janeiro de 2020 e junho de 2026, foram registradas 2,9 mil toneladas de cassiterita como originadas dessas duas PLGs. Desse total, 2,3 mil toneladas foram compradas pela White Solder, conforme registros públicos da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) disponibilizados pela Agência Nacional de Mineração (ANM). O valor estimado dessas declarações chega a cerca de R$ 228,54 milhões.

Equipes de fiscalização e reportagem verificaram as áreas apontadas como origem do minério e encontraram, em sobrevoos e vistoria por estradas de terra, apenas pasto e estruturas para criação de gado. Imagens de satélite de alta resolução analisadas por especialistas não mostraram sinais consistentes de lavra recente nas áreas inspecionadas.

O Greenpeace, que participou da verificação e da análise de imagens, classificou as áreas como possíveis “garimpos fantasmas” — PLGs que constam como autorizadas para extração e comercialização, mas que na prática não registram produção. Esse tipo de cadastro pode ser usado, segundo especialistas, para camuflar a origem de minério extraído ilegalmente em áreas sem autorização, inclusive em territórios indígenas.

A cassiterita é o principal minério do estanho, metal estratégico para indústrias eletrônica e bélica. A White Solder compra o minério bruto e realiza o processamento em unidade industrial em Rondônia antes da exportação.

Vista aérea de área com indícios de garimpos inativos em RO.
Vista aérea de área com indícios de garimpos inativos em RO.

Uma das PLGs está registrada em nome da Coomibra (Cooperativa dos Garimpeiros Mineradores do Brasil). A análise histórica por satélite apontou sinais de extração apenas em 2018 e 2019, sem indícios claros de atividade desde então. Entre janeiro de 2020 e abril de 2023, 2,3 mil toneladas atribuídas a essa área foram declaradas à ANM como fornecimento à White Solder.

A outra PLG é vinculada à Coomari (Cooperativa Mineradora de Ariquemes). A White Solder declarou compras originadas dessa área em dezembro de 2024 e abril de 2025, totalizando 7,9 toneladas.

A tabela abaixo resume as quantidades e os valores estimados declarados como originários das duas PLGs.

Mão segurando uma amostra de cassiterita.
Mão segurando uma amostra de cassiterita.
PLG / CooperativaCassiterita (toneladas)Valor estimadoPeríodo declarado
Coomibra2.300R$ 228,54 milhõesjan/2020 a abr/2023
Coomari7,9R$ 570,3 mildez/2024 e abr/2025

As PLGs sem sinais de atividade ficam a cerca de seis quilômetros da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau, que abriga nove povos, cinco deles isolados. Lideranças indígenas e organizações socioambientais alertam que a proximidade e o avanço de áreas licenciadas para garimpo pressionam territórios tradicionais e podem afetar rios, causar contaminação e aumentar a violência no entorno.

Representantes do Ministério Público Federal (MPF) citam riscos semelhantes aos observados na Terra Indígena Yanomami, onde a White Solder virou ré em processo federal que acusa a empresa de participação em um esquema de extração ilegal de cassiterita. Segundo o MPF, o esquema teria movimentado cerca de R$ 166 milhões.

O Greenpeace e especialistas apontam fragilidades no modelo de PLG. Entre elas, a dispensa de estudo prévio sobre o potencial produtivo das áreas, o que permite que volumes declarados não sejam verificados por levantamento geológico e facilita a presunção de origem legal do minério sem comprovação de extração efetiva.

Mapa mostrando áreas de garimpos e terras indígenas em RO.
Mapa mostrando áreas de garimpos e terras indígenas em RO.

Em junho de 2024, a Coomari foi multada pelo Ibama em mais de R$ 1 milhão por manter “atividades potencialmente poluidoras sem licença” e teve uma área de 800 m² embargada em Ariquemes. A Fábrica Auricchio e a White Solder constam em listas de certificação da Responsible Minerals Initiative (RMI); a RMI informou que analisará as evidências e consultará as partes interessadas para avaliar ajustes na lista e no programa.

Em resposta às críticas sobre a fiscalização das PLGs, a ANM aprovou em junho de 2026 uma resolução que altera o regime de Lavra Garimpeira. Entre as mudanças estão a exigência de comprovação de efetiva atividade de mineração para renovar PLGs, o limite máximo de 50 hectares para PLGs de pessoas físicas e firmas individuais e de 1.000 hectares para cooperativas, que deverão apresentar anualmente a relação de cooperados.

Procurada, a White Solder não respondeu até a publicação desta reportagem.

Fonte das informações: Repórter Brasil

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