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Com testes de DNA e documentos do sótão, Gabriela, levada ilegalmente em 1981, voltou ao Brasil para confirmar parentesco; investigam intermediária holandesa.
Gabriela Bengtsson reencontrou a mãe biológica, identificada como Maria*, em junho de 2026, na Bahia, após mais de 40 anos separadas. O vínculo foi confirmado por testes de DNA e o reencontro aconteceu em Teixeira de Freitas, cidade do interior baiano.
Gabriela nasceu no fim de 1980 em Medeiros Neto (BA) e foi levada ilegalmente do Brasil para a Suécia em 1981. Na época, a família sueca recebeu a criança com uma certidão de nascimento em que apareciam como pais biológicos; Gabriela cresceu acreditando ter sido abandonada num mosteiro em Salvador.
As suspeitas sobre a origem da sua adoção surgiram depois que, ao vasculhar caixas antigas no sótão da casa do pai adotivo, Gabriela encontrou documentos relacionados ao processo de adoção no Brasil. Em julho de 2020, ela procurou voluntários que ajudam na busca por parentes e, a partir de trocas de mensagens e de testes de DNA, seguiu pistas que culminaram no reencontro com a mãe.
A identificação da família brasileira também contou com a ajuda de um primo, Igor*, que mora na Holanda. Igor descobriu uma possível ligação pela plataforma de testes genéticos MyHeritage, contatou a família e fez testes adicionais que confirmaram o parentesco.
Mãe de 12 filhos, Maria relata que entregou a bebê, então chamada Creuza, a duas voluntárias que se apresentaram como holandesas e pediram repetidamente para cuidar da criança. Segundo ela, voltou depois para buscar a filha, mas a encontrou já fora do alcance; afirma nunca ter recebido ajuda financeira das mulheres que levaram a bebê.
As investigações sobre o caso apontam para a participação de uma intermediária holandesa, identificada como Catharina Anna Geertruida Maria Seeder (também chamada Cathia). Cartões e documentos encontrados nas caixas do pai adotivo de Gabriela relacionam Catharina a funções como representante de uma instituição financeira que não existe, e o nome dela aparece em processos e suspeitas levantadas nos anos 1980.
Na década de 1970 e 1980 o Brasil era rota frequente para adoções internacionais; estudos históricos estimam que pelo menos 30 mil crianças foram adotadas por estrangeiros entre 1965 e 1988. Pesquisadores apontam que, embora nem todas as adoções envolvessem sequestro, havia práticas ilegais, como a inserção do nome dos pais adotivos como pais biológicos nas certidões.
Em alguns casos investigados na Holanda nos anos 1980, pais adotivos reconheceram ter falsificado o estado civil de crianças brasileiras. Autoridades brasileiras e holandesas trocaram informações na época, e houve investigações sobre adoções intermediadas por Catharina; o paradeiro atual dela é desconhecido.
Outra brasileira adotada naquele período, identificada aqui como Louisa*, reuniu evidências de que seu processo de adoção também teria ligações com o mesmo esquema: coincidência de hospital registrado nas certidões, a atuação da mesma intermediária e pagamento realizado pelos pais adotivos.
A partir de 1990 as regras brasileiras para adoção internacional mudaram com a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que proibiu pagamentos pela adoção e alterou procedimentos, exigindo que interessados no exterior manifestem oficialmente seu interesse nos órgãos competentes do país de origem.
Gabriela, hoje professora e mãe de dois filhos na Suécia, descreve o reencontro como um momento de alívio e pertencimento: “Foi simplesmente maravilhoso. Muitos abraços, muito amor. Tudo fez sentido”, disse. Para outras pessoas adotadas na mesma época, a busca por identidade e a reivindicação por responsabilização dos envolvidos continuam.
O caso ressalta questões abertas sobre adoções internacionais da época: a necessidade de esclarecer práticas ilegais, localizar familiares e responsabilizar possíveis autores de fraudes. Vítimas e pesquisadores defendem que os fatos sejam tornados públicos para permitir reparação e assegurar direitos de pessoas adotadas que ainda não conhecem suas origens.
*Sobrenomes omitidos para preservar a privacidade dos entrevistados.
Fonte da imagem: Privat via DW
Fonte das informações: g1.globo.com
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