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  • 23 Sep, 2026

Cepal estima que um El Niño extremo reduziria ao menos 2% do PIB regional em três anos e empurraria até 4,8 milhões à pobreza; energia, agricultura e pesca em risco.

Um episódio extremo do El Niño pode reduzir em pelo menos 2% o Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e do Caribe ao longo de três anos e levar até 4,8 milhões de pessoas adicionais à pobreza até o fim da década, segundo estimativa da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão ligado à ONU. O relatório especial foi divulgado no dia 21 e analisa os impactos econômicos, sociais e ambientais em um cenário de El Niño de forte intensidade.

A Cepal calcula que cerca de metade da perda econômica ocorreria já no primeiro ano do fenômeno, por meio da redução da renda de famílias e produtores. O efeito combinado sobre oferta e preços de alimentos, geração de energia e atividades produtivas explicaria o aumento esperado da pobreza em comparação com um cenário sem El Niño.

O que é e por que pode ser mais grave

O El Niño é o aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, que altera a circulação atmosférica e modifica padrões de chuva e temperatura ao redor do mundo. Em um episódio extremo, os impactos sobre setores sensíveis — como agricultura, energia e pesca — tendem a ser mais severos.

Probabilidade de um evento muito forte

Projetos citados pela Cepal indicam alta probabilidade de intensidade muito forte para o El Niño no outono e inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027 (primavera e verão no Brasil). As projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) apontam mais de 90% de chance de intensidade muito forte e 69% de chance de magnitude histórica, classificada no relatório como "Súper El Niño". Neste último cenário, anomalias da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 poderiam superar 2,5°C ou 3°C.

Impactos econômicos e setoriais

Os efeitos não seriam uniformes entre países nem entre setores. A Cepal destaca riscos para o PIB, inflação, pobreza, produção agropecuária, geração de energia e pesca, além de danos à infraestrutura.

O setor elétrico é apontado como um dos mais vulneráveis porque muitos países da região dependem fortemente da geração hidrelétrica — em alguns casos mais de 70% da matriz. Menores volumes de chuva e temperaturas mais altas reduzem reservas quando a demanda por refrigeração aumenta, pressionando fornecimento e preços.

Na agricultura, análises da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam probabilidade superior a 70% de secas que afetem o setor nos próximos meses em áreas do Corredor Seco da América Central, além de partes da Colômbia, Venezuela e ilhas do Caribe como Cuba, República Dominicana e Haiti. As consequências incluem redução de colheitas, escassez de forragem e queda de renda para produtores.

A pesca também sofreria com o aquecimento das águas do Pacífico, que enfraquece a remontada de águas profundas e frias ricas em nutrientes. Isso reduz a disponibilidade de espécies como anchoveta, sardinha e merluza, afetando comunidades pesqueiras. Em episódios passados, as capturas caíram 52,7% em 1972-1973 e 26,9% em 1997-1998.

A Cepal projeta que, entre outubro e dezembro de 2026, determinadas áreas têm até 60% de probabilidade de déficit de precipitação, e que 31,1% do território regional estaria em alerta alto. Grandes metrópoles como São Paulo, Lima e Cidade do México podem enfrentar aumento da demanda energética em períodos de menor disponibilidade hídrica.

Em síntese, perdas de produção, aumento de preços e maior custo de geração de energia combinam-se para reduzir rendimento familiar e empurrar mais pessoas abaixo da linha de pobreza — a estimativa é de até 4,8 milhões de pessoas adicionais até o fim da década no cenário extremo analisado.

Principais estimativas e probabilidades

A tabela a seguir resume as estimativas e probabilidades citadas no relatório da Cepal.

IndicadorEstimativa / Probabilidade
Redução do PIB regional (3 anos)Ao menos 2%
Pessoas adicionais em pobreza até o fim da décadaAté 4,8 milhões
Probabilidade de El Niño muito forte (NOAA)Mais de 90% (outono/inverno 2026-2027)
Probabilidade de "Súper El Niño" (NOAA)69% (anomalias Niño 3.4 >2,5–3°C)
Probabilidade de déficit de precipitação (out‑dez 2026)Até 60% em áreas específicas
Território em alerta alto31,1% da região
Probabilidade de secas afetando agricultura (FAO)Superior a 70% em áreas selecionadas
Queda de capturas em episódios passados52,7% (1972-1973); 26,9% (1997-1998)

Recomendações

A Cepal recomenda medidas preventivas para reduzir impactos, como criação de mecanismos financeiros de emergência, investimentos em infraestrutura resistente ao clima, sistemas de alerta precoce, programas de proteção social voltados a famílias vulneráveis e diversificação das fontes de geração elétrica.

Outras sugestões incluem planejamento de estoques para períodos de seca, maior integração energética regional e políticas de eficiência no consumo de eletricidade. O órgão ressalta que ações preventivas tendem a ser mais custo‑efetivas do que respostas implementadas apenas após uma emergência.

Os números do relatório representam projeções para um cenário extremo de El Niño; não implicam que todos os impactos ocorrerão com certeza, mas indicam riscos relevantes que governos e setores produtivos devem considerar nas políticas de preparação e mitigação.

Fonte das informações: Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal); Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA); Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)

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