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  • 16 Sep, 2026

Vítimas relatam esquema via Romeo, Grindr e Tinder (2018-2025): viagem oferecida e, depois, trabalho forçado, violência sexual e chantagem na Europa.

Pelo menos cinco brasileiros relatam ter sido atraídos por um homem na Alemanha por meio de aplicativos de relacionamento e, após viajar ao país, sofreram trabalho forçado, violência sexual, ameaças e extorsão. As denúncias descrevem um padrão de aliciamento que, segundo as vítimas, ocorre há pelo menos oito anos e envolveria sempre o mesmo suspeito, que atuava no norte da Alemanha.

Os relatos apontam que o contato inicial se dava por aplicativos como Romeo, Grindr e Tinder. O suspeito, segundo as vítimas, colocava localização em cidades brasileiras — como Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza e Natal — e mantinha conversas afetuosas até convencer os homens a enviar fotos íntimas e dados pessoais. Essas imagens e informações, afirmam as vítimas, eram usadas depois para ameaças e chantagens.

Após o período de contato, o homem oferecia passagens e documentos para facilitar a viagem à Europa: emissão de bilhetes, apólices de seguro e cartas-convite nas quais se responsabilizava pela estadia. Documentos analisados pelas vítimas incluem cartas enviadas entre 2018 e 2025.

Já na Alemanha, as vítimas relatam que eram obrigadas a trabalhar sem remuneração na empresa do suspeito e submetidas a violência física, sexual e psicológica, inclusive ameaças de morte e tentativas de homicídio. Alguns denunciaram que tiveram os passaportes retidos e foram impedidos de deixar o país até conseguirem fugir.

Fernando*, de 34 anos, conta que aceitou a proposta durante uma viagem pelo Nordeste e embarcou sem trabalho ou renda. Ao chegar, diz ter sido acordado à noite para trabalhar, forçado a manter relações sexuais não consentidas e ameaçado de morte. Após tentar fugir, afirma ter sofrido uma tentativa de homicídio; conseguiu ajuda de vizinhos, recuperou o passaporte e retornou ao Brasil com apoio de amigos.

Alceu*, de 35 anos, descreve promessa de relacionamento e emprego. Segundo ele, ao chegar à Alemanha passou a ser maltratado, deixado na rua no frio, agredido e coagido a manter relações sexuais. Em uma ocasião relata ter sido quase atropelado durante uma tentativa de fuga. Alceu registrou boletim de ocorrência na Polícia Federal ao voltar ao Brasil e procurou assistência jurídica.

Outro relato, de Alberto*, de 37 anos, descreve uso de um celular — presente do suspeito — para enviar fotos íntimas a amigos e familiares, prática que o deixou desorientado e ansioso. Vítimas também relatam que o suspeito criava perfis falsos em aplicativos associando-os à prostituição e divulgava imagens íntimas em grupos de contatos.

Além de relatos de brasileiros, documentos a que as vítimas tiveram acesso indicam que homens de outros países da América Latina — Peru, Colômbia e Venezuela — também teriam sido convidados pelo mesmo suspeito. Uma fonte ligada a um aeroporto no norte da Alemanha relatou atendimento a um panamenho com pedido de auxílio semelhante.

Algumas vítimas conseguiram voltar ao Brasil e registrar ocorrências na Polícia Federal e em delegacias estaduais; outras afirmam ter buscado ajuda em delegacias no norte da Alemanha. A advogada brasileira Delaine Kühn, que atua na Alemanha, diz ter acompanhado processos civis e criminais relacionados a lesão corporal, estupro e pedidos de medida protetiva. Em um caso, houve condenação em primeira instância por estupro, seguida de recurso do acusado e absolvição em instância superior, segundo a advogada.

Kühn afirma que muitas das vítimas são jovens — geralmente entre 25 e 30 anos — vulneráveis por não falar o idioma e sem condições de custear assistência jurídica, o que dificulta a tramitação de processos e contribui para a sensação de impunidade.

Documentos consulares trocados entre o Ministério das Relações Exteriores brasileiro e a embaixada do Brasil em Berlim indicam que, desde agosto de 2025, há pedido de cooperação jurídica em matéria penal entre Brasil e Alemanha relacionado ao suspeito. Autoridades policiais na Alemanha e em outros países consultadas informaram que não comentam investigações por questões de privacidade, e outras polícias não retornaram contato.

Relatórios oficiais sobre tráfico de pessoas apontam que o uso de redes sociais e aplicativos foi, no ano anterior, a forma predominante de aliciamento de brasileiros para exploração sexual, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

Representantes dos aplicativos citados afirmaram adotar medidas de denúncia e suspensão de perfis. O responsável pela plataforma Romeo declarou que denúncias são analisadas por equipe de segurança e que contas confirmadas como criminosas são banidas; o grupo responsável pelo Tinder informou ter identificado e bloqueado a conta ligada ao suspeito e adotado medidas para impedir seu uso em outras plataformas do mesmo grupo.

As vítimas ouvidas afirmam que a sensação predominante é de impunidade e pedem que as autoridades atuem para interromper o padrão de aliciamento. "Esse homem não pode ficar solto", disse um dos denunciantes, que organizou articulação com outros brasileiros para formalizar queixas e alertar potenciais novas vítimas.

*Nomes alterados para preservar a identidade dos entrevistados.

Fonte das informações: relatos de vítimas, documentos consulares, advogada que acompanha os casos e dados oficiais (MJSP/UNODC)

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